quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pág. 4 - Faltam médicos e respeito

Flávio Azevedo

E continuam pipocando as reclamações sobre o funcionamento dos equipamentos de Saúde em nossa cidade. No olho do furacão, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e o Hospital Regional Darcy Vargas (HRDV). As fantasiosas declarações que colocam a Saúde de Rio Bonito entre as cinco melhores do estado ajudam aumentar a indignação do povo. Se o governo é hipócrita ao amplificar essa informação como se a Saúde da nossa cidade oferecesse padrões europeus; a oposição, também hipócrita, pinta o Diabo mais feio do que ele parece.

Diante disso, decidimos provocar os órgãos de Saúde do nosso município (Secretaria de Saúde e Conselho de Saúde) a vir a público, sem rodeios, esclarecer as constantes faltas de médico. Reconhecemos que o problema se inicia a partir do momento que os profissionais não estão disponíveis para serem contratados. Outra questão, porém, é que boa parte deles não quer trabalhar nos fins de semana e feriados prolongados. Mas por que ninguém trás esse assunto a baila?

Em Rio Bonito, por exemplo, as reclamações sobre falta de médicos se concentram nos feriadões e fins de semana. O pior é que como nós conhecemos bem essa questão, já podemos prever o que acontecerá: nada... Porque se os faltosos forem demitidos não terá médico também nos dias normais!

Muito se fala da questão de aprendermos votar, mas sinceramente nós do grupo de mídias “O TEMPO” acreditamos que esse problema deve ser olhado com mais amplitude e não deve ser debatido de maneira emocional. Fica muito nítido, porém, que não é só uma questão de política. Existe bastante mal caratismo, irresponsabilidade e desrespeito para com o sofrimento alheio.

Outro ponto que não é comentado é que as universidades de Medicina não estão formando médicos em volume suficiente para atender o número de UPAs, PSFs, SAMUs e hospitais que foram criados nos últimos anos. E quem são esses formandos? Que valores preservam? Gostam de gente? Ou estão trabalhando mais por Hobby do que por necessidade? E por que esse tema não é debatido por quem pensa a Saúde em nosso país?

Uma análise do contexto histórico da Educação brasileira mostra que alguns segmentos – entre eles as faculdades de Medicina – são instrumentos classistas, separatistas e de confirmação da desigualdade social. A profissão de médico sempre foi enxergada como ocupação para filhos de famílias ricas, por conta do status.

O problema é que boa parte dos filhos desse setor da sociedade, por criação e vida sem dificuldades, pouco se interessam pelas causas alheias (as exceções são raras). Uma análise em hospitais e Postos de Saúde deixa claro que uma profissão apelidada de “sacerdócio” não pode estar povoada por pessoas que estão ali por “status” e/ou pensando em dinheiro. O argumento das vagas em universidades públicas não é válido, porque assim como acontece nos concursos públicos (como vimos recentemente no Fantástico), as poucas vagas que existem, às vezes, tem custos bem acima das posses da classe média.

Fato real

Em nossas apurações conversamos com um jovem que acaba de ser pai. Indignado, ele narra a sua história. Um relato cruel, que confirma as nossas apurações e conclusões quanto a falta de respeito a quem depende dos serviços de Saúde. De acordo com o nosso entrevistado, que trabalha como motoboy, a sua esposa fez o tratamento pré-natal no Ambulatório Municipal Manoel Loyola Silva Júnior. Próximo ao fim da gestação, o médico que acompanhou a sua esposa em todo pré-natal diz que ela não tem condições de parir de forma natural e informa que o custo do parto cirúrgico é R$ 6 mil.

Desesperados por não ter o dinheiro para o pagamento do parto, o casal recorre aos favores políticos. A pessoa que se prontifica a ajudar arruma um médico que cobra R$ 1,5 mil pelo procedimento. O valor também é inviável para os futuros pais, que ficam sem saber o que fazer. Segundo o motoboy, na última consulta, o médico descobre que o casal buscou outro profissional, não fica nada satisfeito e avisa a paciente para ela procurar o HRDV quando sentir as contrações que avisam a proximidade do parto.

As contrações chegam e conforme orientação médica, a gestante busca o HRDV. O plantonista, apesar de ser informado, pelo casal, que o médico que fez o acompanhamento pré-natal disse que o parto natural não seria possível, prefere esperar. De acordo com o motoboy, o médico que fez o pré-natal estava no plantão, mas sequer olhou para mulher ou orientou o colega sobre o quadro da gestante, que só foi operada no dia seguinte.

Um problema sério

Um dos profissionais de Saúde mais antigos de Rio Bonito, o médico Amirton Corrêa de Sá, afirma que as conclusões da nossa reportagem não estão equivocadas e acrescenta alguns pontos que motivam o cenário caótico, por exemplo, a desvalorização dos profissionais de medicina, o volume de processos contra médicos, as dificuldades trabalhistas, os valores irrisórios das consultas pagas pelos planos de Saúde e os salários defasados.
– Diante desses impasses, nós não somos convidados a opinar sobre o que fazer para mudar esse cenário que há muito tempo já foi identificado. A quantidade de processos contra médicos é grande, algumas especialidades não estão sendo encontradas, mas muito desses problemas acontece porque as pessoas pensam que o médico é um deus, o que não é verdade – ponderou.

Sobre a formação dos profissionais, Amirton afirma que mesmo que se tome uma iniciativa acertada o problema ainda vai perdurar por muitos anos, “porque o profissional não está pronto quando ele sai da universidade”. Para o experiente médico, além dos seis anos de curso de Medicina, são necessários outros 10 anos para que o médico seja realmente um profissional experiente. Ou seja, se as iniciativas estruturais necessárias forem tomadas em 2012, somente iriam apresentar resultados satisfatórios 15 anos depois, no ano 2027.

Um comentário:

  1. Excelente matéria. Já havia lido e aproveitei o momento para reler tudo.
    Recomendo!

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